Entendendo o Luto

O luto é um fenômeno complexo e natural nos seres humanos, vivenciado universalmente das mais diferentes formas, de acordo com o conteúdo psíquico de cada indivíduo.

Psicólogo Luan Alves

5/8/20243 min read

O luto é uma experiência humana natural. Diferente do que muitas pessoas pensam, ele não é um estado fixo, mas um processo. Como aponta Colin Murray Parkes, o luto envolve uma série de reações que vão se transformando ao longo do tempo; sentimentos, pensamentos e comportamentos que se misturam, aparecem e desaparecem.

De forma geral, o luto surge quando perdemos algo ou alguém significativo. E aqui está um ponto importante: essa perda não precisa ser apenas a morte de uma pessoa. Como já indicava Sigmund Freud, também podemos viver o luto diante da perda de um relacionamento, de um projeto de vida, de uma fase, da saúde, de um papel social ou até de um ideal.

Cada pessoa vive o luto de um jeito:

Embora o luto seja universal, a forma de vivê-lo é profundamente individual. Segundo Kenneth Doka, algumas pessoas podem sentir uma dor intensa e visível, enquanto outras lidam de maneira mais silenciosa ou resiliente.

Isso acontece porque o luto não afeta apenas uma dimensão da vida. Ele pode impactar:

  • Emoções (tristeza, raiva, culpa, saudade)

  • Pensamentos (confusão, dificuldade de concentração)

  • Corpo (cansaço, alterações no sono e apetite)

  • Comportamentos (isolamento, choro, agitação, uso abusivo de substâncias)

Além disso, fatores como o tipo de vínculo, a forma como a perda aconteceu, a história de vida da pessoa e o contexto social influenciam diretamente essa experiência. Muitas pessoas acreditam que o luto acontece em etapas bem definidas, mas, na prática, ele não segue uma linha reta. Há avanços, recuos, momentos de maior intensidade e períodos de aparente estabilidade.

As conhecidas fases propostas por Elisabeth Kübler-Ross — como negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação;  não devem ser vistas como uma sequência rígida, mas como possibilidades que podem aparecer ao longo do processo.

O luto é movimento. É comum sentir que “estava melhor” e, de repente, a dor retorna. Isso não significa regressão, mas sim que o processo ainda está em elaboração. Porém, nem todo luto é reconhecido

Um dos aspectos mais delicados do luto é que nem sempre ele é validado socialmente. Existem perdas que a sociedade tende a minimizar ou ignorar; como o fim de um relacionamento, a perda de um animal de estimação, um aborto, ou até mudanças importantes na vida, como aposentadoria, perda de status, etc. São infinitas possibilidades.

Segundo Doka, esses são chamados de lutos não reconhecidos.

Quando a dor não é validada, a pessoa pode sentir que “não deveria estar sofrendo”, o que dificulta a expressão do pesar. Muitas vezes, isso leva ao silêncio, ao isolamento e até ao adiamento do processo de elaboração do luto. Mas o sofrimento não reconhecido não deixa de existir, ele apenas encontra outras formas de se manifestar, inclusive no corpo e nas emoções.

O luto também pode ser interpretado como uma busca por sentido. Em uma perspectiva mais contemporânea, como aponta Maria Helena Pereira Franco, o luto pode ser compreendido como um processo de reconstrução de significado. Quando perdemos algo importante, não perdemos apenas aquilo em si, mas também tudo o que estava ligado a essa experiência: planos, rotinas, identidade, expectativas.

Por isso, o luto nos confronta com perguntas profundas, como: “O que eu faço agora?” - “Quem eu sou sem isso?” - “Como sigo em frente?”

Elaborar o luto não significa esquecer ou “superar” no sentido de apagar a dor, mas sim encontrar uma forma de integrar essa perda à própria história, construindo novos sentidos para a vida.

Viver o luto é extremamente importante. Evitar ou reprimir o luto pode tornar o processo ainda mais difícil. Para que ele seja elaborado, é fundamental que a pessoa possa reconhecer, sentir e expressar sua dor.

Rituais de despedida, por exemplo, têm uma função psicológica importante: ajudam a dar concretude à perda e a marcar simbolicamente uma transição. Além disso, o acolhimento; seja de pessoas próximas ou em um espaço terapêutico, faz toda a diferença. Ter onde falar, sem julgamento, permite que o sofrimento seja elaborado de forma mais saudável.

E quando devo buscar ajuda?

O luto não é uma doença, mas pode se tornar mais difícil em algumas situações, como perdas repentinas, vínculos muito intensos, falta de apoio ou quando a dor permanece paralisante por muito tempo.

Nesses casos, a psicoterapia pode ser um espaço fundamental. Mais do que “tirar a dor”, o processo psicoterapêutico oferece um lugar seguro para que a pessoa possa compreender o que está sentindo, elaborar a perda e, aos poucos, reconstruir sua relação com a vida.

E como sempre digo: "Toda perda que lhe cause dor, é digna de atenção"